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Na noite da lua cheia tenho um sonho

Eu sou grata, eu agradeço

Depois duma passagem maravilhosa por Chefchaouen, a pérola azul encantada das montanhas do rife, o meu amigo Nour, anjo artesão do Bazar Berber de Tavira, deixou-me em Rabat faz hoje duas semanas

No primeiro dia que vou à rua a pé para explorar o centro da capital marroquina, deparo-me com vários pedintes

É uma capital, penso para com os botões do coração, e já sabes avani todas as grandes cidades tem os seus bairros de lata e os seus sem abrigo e mendigos

Nessa noite não dormi

Deitada na cama, depois de comer, agradeci

Agradeci repetidas vezes

Por ter uma cama, por ter comida na barriga

Passei a noite nisto, uma oração de gratidão

Na segunda noite também não dormi

Muitos destes mendigos são crianças, alguns quase bebés

Alguns ficam com mães, outros ficam sós

Vou ao museu, mesmo aqui ao lado das grandes árvores africanas avatares

Obras de arte de artistas contemporâneos, outros mais antigos, três pintoras autodidatas, e, sem esperar, este quadro no museu

Não sei porquê mas chama-me a atenção

No dia seguinte saio novamente para a rua

Passo nos correios para enviar alguns postais, tomo a direcção da antiga medina, que é o coração vivo da cidade, e descendo a avenida do parlamento, lá está ela

A criança azul

Ainda com as cores mágicas da pérola azul das montanhas do rife a bailar-me na alma, o meu coração pára

A roupa azul e a cara escondida, com os braços sobre os joelhos

Exactamente igual ao quadro do museu, o menino fugiu do quadro e agora está aqui, mesmo à minha frente

Sigo em direcção à medina, com o menino azul no coração

Não sei as regras da cidade, como devo agir, como ser discretíssima, e pergunto à mãe Terra o que faço agora?

Poucos metros à frente, ao entrar nas arcadas, vejo uma grande livraria e entro

Remexo as algibeiras

Sei que tenho poucos trocos

Aliás, são os ultimos dihrames

Mas encontro um livro infantil mesmo à conta das minhas moedas

Pago e sem saber por onde seguir, saio da livraria Kadima, deixo os pés guiarem-me os passos

Percorro a labiríntica medina de Rabat, com o menino azul sempre no coração

Sem querer, o caminho leva-me até ao kasbah e à praia

Fico contente, estamos tão perto do oceano azul

Mas o menino azul tem fome, tal como eu

Respiro fundo e volto para trás

Tenho fruta na mochila, mas não como

Os meus amigos são boas almas, há de haver comida em sua casa

E se não houver, estou habituada a jejuar

Abro as asas e vôo por cima das mil e uma cores, e dos mil e um aromas mirabolantes da medina

Sei voar com extrema rapidez quando faz falta

Mas quando chego, com a fruta numa mão e o livro na outra, o menino azul já não está

Partiu, com a barriga vazia, sem saber do meu olhar envergolhado

Olho para longe, não consigo disfarçar um sorriso triste

Desde esse dia, antes de sair rua, levo sempre a mochila com comida

Pão marroquino e frutas

Dou por mim a ir à rua, a outros pontos da cidade, só para ir, e para regressar com a mochila vazia e levezinha nos ombros

Embora na casa dos novos amigos haja tudo o que é preciso, há principalmente fruta

O livro infantil, ainda está na mochila, à espera de encontrar o menino azul

 

https://www.facebook.com/avani.ancok/posts/2216524285036310

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Na noite da lua cheia tenho um sonho

No sonho instalamos as primeiras caixas das bençãos e os primeiros kits para os sem abrigos de Rabat

Bem desperta, cada vez que vou à rua faço amigos novos, e é sempre sem querer

Ontem durante a meditação veio-me o zero

Zero ~ donde nascem estrelas, e mil e uma outras coisas misteriosas, e onde tudo o que é amor é possível

Ao acordar, a bailar-me no pensamento o zero plastic nas praias poluídas e como poderemos falar com os surfistas para organizar uma primeira limpeza da praia, veio-me parar às mãos o contacto do Rachid

Este jovem é o fundador da Zero Hunger, Zero Waste Marrocos uma associação onde voluntários distribuem refeições aos sem abrigos montados em bicicletas, pelas razões de sustentabilidade óbvias….

Falamos ao telefone e fica combinado um encontro inicial para conversarmos e conhecer melhor o que fazem em vinte cidades marroquinas em simultâneo estas boas almas, que apostam no empoderamento e mudança de vida dos sem abrigo

No entanto, para minha surpresa e alegria, o plano afinal muda e sou convidada a agir hoje, e a participar na distribuição

O ponto de encontro para fazermos a preparação dos sacos é num dos restaurantes parceiros desta iniciativa que, curiosamente, se chama Terra Gelada…

Alguns destes sem abrigo são pessoas iguais a nós, que subitamente ficaram sem trabalho, e acabaram a viver na rua

Algumas destas pessoas já estão à espera, em silêncio, da chegada destes anjos

O que mais me espanta e fascina nestes jovens – engenheiros, médicos, estudantes universitários – é a brilhante capacidade de organização, a forma como escolhem ser parte da solução e como apostam na educação, empoderamento e empreendedorismo!

Um destes jovens, formado em engenharia, faz-me lembrar o meu querido amigo Vitor Parati, um ser iluminado, que depois de trabalhar na recolha do lixo, em vez de dormir, vai distribuir afectos sorrisos abraços e alimentos nas ruas do Porto com os Corações Andantes

Mahomed também veio directamente da embaixada onde trabalha no turno da noite, trocou o sono pela distribuição

Partilho com Rachid as minhas dúvidas sobre a necessidade de seremos silênciosos quando fazemos actos de amor

Ele concorda, mas fazem falta voluntários nas equipas das vinte cidades, e concordamos que a partilha pode apenas inspirar outras pessoas

Assim, para a semana aguardamos a participação de mais voluntários, zero waste sobre rodas… welcome!

Com amor e gratidão,

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